sábado, 8 de novembro de 2008

Seu namoro com o RPG

Na comunidade RPG Brasil, sugeriram um tópico onde se conta sua história com RPG como se fosse a história das suas namoradas. O Pedro viu essa idéia no fórum da RPG.Net e lançou a idéia. Copio aqui a colaboração que dei lá. Sugiro isso como um meme da blogosfera de RPG. Quem quiser participar, manda o link e vamos trocando.

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Eu era um moleque cheio de hormônios dançando rumba pelo meu corpo. Um amigo que veio da Disney me mostrou uns livros de pornografia e nunca mais eu fui o mesmo. Eu podia ficar horas trancado no meu quarto lendo aqueles livros que sempre me perguntavam o que eu queria fazer. E assim, pela masturbação, gozei pela primeira vez.

Um dia, um amigo disse ter conhecido uma mulher maravilhosa, seu nome era AD&D e a gente podia fazer o que quiser com ela. Era uma dessas mulheres mais velhas, mais vividas, que piravam a cabeça da garotada com momentos inesquecíveis.

Infelizmente, essa dileta dama cobrava caro para nossas posses na época, mas nosso desejo não parava de crescer. Decidimos então construir nossa própria namorada a partir das poucas memórias que alguns de nós tinham de seus momentos com a corôa enxuta. Dias e dias depois, lá estava ela. Não tinha uma roupa muito bonita, era costurada com grafite 2B e as meias eram de xerox, ainda assim era uma delícia desnudá-la para o nosso prazer. Nunca parávamos de mudá-la, era uma verdadeira Amélia que cedia a todas as nossas vontades juvenis. Falávamos dela para as pessoas as vezes, contávamos as peripécias que fazíamos com ela. Todos ficavam loucos para conhecê-la, mas nunca mostramos para ninguém.

Nos dedicamos a conhecer outras mulheres com o único intuito de roubar presentes para a nossa namorada. Saímos algumas vezes com a GURPS e roubamos todas as suas magias. Outros dias saíamos com a RoleMaster e sua irmã MERP, mas não conseguíamos roubar nada, elas falavam demais e diziam muito pouco. Também saímos com a Call of Cthulhu e achamos muito bacana. Hoje, tenho até saudades dela.

Conhecemos então um cara que morava com a AD&D. Ele abriu o guarda roupa de sua amante e mostrou uma coleção de vestidos lindos, vermelhos, amarelos, negros e tantos outros. Cometemos então a maior injustiça de nossas vidas, trocamos nossa namorada que por tantos anos nos serviu por uma mulher vaidosa, cheia de vestidos bonitos e que tudo que a interessava era poder. Foi difícil resistir, ela foi quem despertou nosso primeiro desejo e por isso cedemos.

Alguns anos depois, já havíamos nos deleitado com todos os vestidos da AD&D. Gostávamos muito quando ela vestia uma combinação de couro e pedra, com a pele bem bronzeada. Ainda assim, enjoamos e começamos a fazer roupas novas para ela. Todas peças curtas, bem eróticas, nenhum longo ou alta costura. Eram roupas rápidas de colocar e de tirar.

Já estávamos de saco cheio da AD&D quando a Vampire veio. Ela prometia revolucionar, ser diferente de tudo que já tínhamos vistos. Novos prazeres e sensações únicas. Já não éramos mais crianças, mas ainda nos impressionávamos com qualquer coisa. Pouco a pouco, a Vampiro apresentava uma irmã para cada um de nós. Éramos em 5 e quatro irmãs ela trouxe. Cada um de nós se casou com uma e as sustentamos. Investimos muito nelas e tivemos o retorno desejado. Foram relacionamentos felizes, mas algum tempo depois começamos a questionar nossas escolhas.

Eu era casado com a Vampire, mas não aguentava mais a cara de quem peidou que ela fazia para tirar foto. Sempre que ela começava com aquele papo de horror pessoal eu começava a lembrar da sua irmã Mage, que estava casada com um dos meus melhores amigos. Eu fica revoltado, pois achava que ele não dava a devida atenção para ela. Era sempre papai e mamãe com uma mulher disposta a realizar todo Kama-Sutra. Pior, as vezes eu me pegava cobiçando a mulher de meu próprio irmão, a doce Changeling. Ela era criativa e melancólica, uma combinação explosiva para mim.

Até que mandei a Vampire embora. Joguei as roupas dela pela janela e exigi que ela nunca mais aparecesse. Foi duro para ela, mas com tantos fãs obcecados não precisava de mim.

Fiquei desgostoso das mulheres por um tempo, no meu íntimo, sonhava com minha primeira namorada feita a mão e várias vezes me peguei chorando no meio da noite. Um dia, meus amigos bateram em minha porta e falaram "olha quem está aqui". Eles traziam a AD&D com eles, mas esta havia passado uma temporada "no estrangeiro" e voltou cheia de plásticas na cara e roupas que já não lhe cabiam tão bem. Sabe quando uma mulher de 40 usa trajes de cocota? Tive essa impressão quando ela me disse que agora se chamava D&D 3e. Entrei numa fase niilista em relação as mulheres. D&D vinha até mim com várias roupas e trejeitos esquisitos mas eu apenas ficava ali, não me apegava. Estava muito ocupado com trabalho e só podia contar com meus amigos para me apresentar namoradas.

Aproveitei que o amigo que fora casado com a Mage a deixou pela D&D e peguei Mage para mim. Jurei que cuidaria bem dela, mas a verdade é que nunca consegui chegar as vias de fato com a Mage. Porém, tenho certeza que estou lhe dando um lar melhor, pelo menos vez ou outra acaricio gentilmente suas curvas. O mesmo fiz com a pequena ex-mulher de meu irmão e assim comecei a montar meu harém adormecido. A única coisa bonita que vi com a D&D, foi o vestido que um amigo especialmente apaixonado por ela fez. Participei de seu corte e costura com gosto, o vestido ficava elegante nela apesar do botox.

Deixei meus amigos. Ainda ouço notícias da D&D e a última coisa que soube é que ela surtou de vez, agora se chama 4e e não fala mais coisa com coisa. Com tanta idade, era esperado que ficasse senil. Até meu amigo mais apaixonado lhe tomou o vestido que fizemos para ela.

Hoje, me dedico a colecionar mulheres. Ando de bar em bar flertando com todas elas. Adoro essas novinhas independentes que andam aparecendo por aí. Todas leves, descompromissadas e cheias de idéias na cabeça. Vez ou outra, encontro com alguma outra corôa da época da AD&D, prefiro as que envelheceram com mais dignidade. Se a pele dessas não é mais tão rija quanto fora, ao menos seus beijos e histórias carregam um espírito que falta as minhas lindas ninfetas.

Assim, chego em casa todos os dias e as vejo pelo sofá e pela cama. Don't Rest Your Read, Spirit of The Century, Esoterrorists, Elric!, Ars Magica, Whispering Vault, Cold City, Ex Machina, Mutants & Masterminds... Todas elas me recebem com sorrisos largos. Eu as acaricio, beijo, aliso, mas as deixo antes do fim.

Voltei a roubar das minhas mulheres para construir a minha namorada perfeita. Ela está nascendo leve, divertida, com o formato do meu sonho. Já a vesti de cowboy lutando contra vermes gigantes, já a vesti com trajes da segunda guerra repleta de paranormais e aberrações e agora ela está ganhando uma roupa linda de pirata. Em breve ela vai ter dinossauros, naves espaciais, viagem no tempo, ninjas e cowboys, afinal ela topa tudo que eu quiser.

A verdade é que eu nunca esqueci minha primeira namorada e ela nunca me esqueceu também. Se hoje ela é completamente diferente, é por que eu sou completamente diferente hoje.

6 comentários:

olethros disse...

Caralho... muito, muito legal o texto...

Cochise César disse...

caraca!!! muito bom o texto. bom mesmo.
Quanto a essa coisa da Mage.... É mais ou menos assim que eu me sinto com o grupo... eles ficam no papai mamãe e ela está pronta para todo o kama sutraa. Isso é meio broxante...

guerrasdraconicas disse...

Viagem fantastica essa, huauahhau!

casadoslordes disse...

Tomei a liberdade de escrever o texto por indicação sua.

O meu testemunho está aqui
www.casadoslordes.wordpress.com

Meu Nome É Tonho disse...

Legal!

Mas teu amigo que trocou a Mage por D&D é um escroto, liga só pra aparência e não pra conteúdo :P
(Embora a Mage irrite as vezes com suas brigas)

opiumseed disse...

Na verdade, o meu amigo que trocou Mage por D&D liga ZERO para aparência. O lance dele é matemática, ver regras em movimento e esse tipo de complexidade. Mage, de fato, não tem nada isso.

Direito dele.