terça-feira, 4 de novembro de 2008

Modernidade e Magia

Numa discussão belíssima iniciada na lista Area-RPG pelo Daniel Don, foi debatido como seria um mundo moderno que tivesse em seu passado o paradigma mágico do D&D. Seguem os meus centavos nessa conversa.

Pensem em qual foi o grande trunfo da ciência para a secularização do mundo: conforto e qualidade de vida. O maior apelo da ciência em relação a religião, o misticismo e a magia é que as respostas sobre a vida que a ciência propõe fazem os seus dentes ficarem no lugar, criam o ar condicionado, máquinas que te poupam trabalho e de quebra ainda rolam umas vacinas.

Se a religião e a magia dessem respostas diretas às questões através da intervenção dos deuses e dos mistérios ocultos, não haveria a necessidade da ciência cumprir esse papel. Se eu ficasse doente, iria ao templo e ficaria efetivamente curado, pois um sacerdote me aplicar um "curar doenças leves" e isso seria melhor do que tomar uma vacina, um remédio ou ser operado.

Se eu tivesse fome, posso me dedicar a alcançar um pequeno nível no sacerdócio da minha religião e com isso fazer aparecer água e comida de verdade com as minhas orações. Isso é melhor do que ir no mercado ou ter que trabalhar para comprar alimento.

Evidentemente, a idéia de que as revoluções científicas são movidas por simples necessidades de maior conforto é muito limitada. A busca por conhecimento, por verdades e descobertas move o homem na direção do saber tanto quanto o frio e a fome. Porém, devemos lembrar que a magia e a religião também são um conhecimento. Num ambiente de magia e religião inferindo diretamente na realidade, seria lugar onde a magia e a religião seriam campos de estudos e revelações que evoluiria com o tempo. Não pelos mesmo métodos da ciência, mas com formas próprias de se expandir na direção da dúvida.

Um mundo high fantasy, onde o poder não estivesse na mão de um casta e fosse bem acessível, poderia não diferir muito de um mundo tecnológico. Imaginem que ao invés de comprar um celular eu ia comprar um item mágico que, ao invés de componentes de micro eletrônica, teria uma runa de telepatia que cumpriria a mesma função de me conectar remotamente com outras pessoas. Ano após ano, os estudos místicos criaram runas cada vez mais intrincadas e refinadas. Os pactos ocorreriam com entidades cada vez mais poderosas e especializadas. Um dia, meu item mágico de comunicação ia até tirar foto.

Eu também acredito que pensaríamos em formas não mágicas de fazer as coisas. Porém, assim como a magia hoje é uma coisa menor, um hobby ou uma excentricidade, a tecnologia também o seria. Estou falando de uma inversão de polaridades.

Ainda mais difícil de imaginar, é a mentalidade dos povos desse mundo. Hoje, muito do que pensamos e como pensamos é orientado pelo nosso paradigma científico. Aqui com os meus botões, eu acredito que essa modernidade mística teria a imprevisibilidade muito mais arraigada ao seu modo e pensar, inclusive por ser uma sociedade acostumada a olhar o próprio futuro em oráculos objetivos que exibem imagens do por vir. Não iríamos ter a dúvida filosófica entre o livre arbítrio e a determinação divina, íamos ver as duas forças operando a nossa frente e teríamos conhecimento objetivo de que, em verdade, o resultado desse embate só ocorre no seu próprio momento, mesmo que esse momento possa ser refeito através de viagens mágicas no tempo. Ou seja, nem o passado é imutável.

Hoje tentamos controlar a imprevisibilidade. Ela é um tabu, o inimigo da verdade. Ela circula na boca os teóricos do caos, mas na vida mundana o planejamento, a disciplina e a determinação devem superar qualquer contra tempo. Nesse mundo das bolas de cristal, já teríamos visto que as forças que operam o destino, o presente e o passado nunca param de se confrontar, logo já incorporaríamos a incerteza de uma forma muito mais natural.

Outro ponto, um mundo contemporâneo que parte da idéia de que a magia é real seria interessante como cenário se estivéssemos sentindo hoje o retorno de milênios de uso da magia. A tecnologia é maravilhosa, mas tem um retorno forte quando o seu uso desmedido passa por questões ambientais e uso racional de recursos. Então imagine que após eras de uso intensivo da mágica, as pessoas estivessem começando a sofrer algum mal por isso.
Pensem em Dark Sun para entender uma parte dessa idéia.

Ecomagica seria a palavra da vez.

4 comentários:

Havoc disse...

Queria conversar sobre uma possível colaboração do Grimório Esquecido (www.grimorioesquecido.blogspot.com) com o Observatório. O assunto trata da repostagem livre de material.

Caso queiram falar, me contatem através do MSN bruno_raviolo@hotmail.com

guerrasdraconicas disse...

Imagine um cenário que a magia chegou a niveis imaginaveis, semenhante a tecnollogia nos dias atuias, ou até mesmo a ficção cinetifica!? Essa ideia que se blog sugere já foi utiliada na minha mesa de RPG (por outro mestre) e foi bem legal. tem Eberron que é mais ou menos assim. Mas seria bom ver algo mais concreto nesse aspecto.

Remo disse...

O início do texto faz uma distinção importante -- se tratar do paradigma do D&D. Há um problema, ao menos para mim, nesse paradigma: ele é tendencioso. Se se some com a exclusividade clerical em termos de magias curativas, algumas coisas podem rumar para direções diferentes.

Um arcano secular que ofereça os mesmos benefícios de cura que são oferecidos no templo, uma espécie de médico, livre de toda a carga dogmática de é-assim-que-você-deve-viver-sua-vida pode ser mais atraente que o padre que quer se meter na sua vida. Nessa conjuntura, o da igualdade de recursos entre um conjurador arcano e um divino (uma distinção que denota apenas pertencência a uma organização), os arcanos, não necessitando ficar satisfeitos apenas com explicações de livros sagrados, podem vir a desenvolver "ciências da magia" ou coisa assim, com base em experimentação e observação.

Um exemplo legal dessa ciência que nasce da magia e dela se ocupa pode ser visto nos livros do mundo de Bas-lag do China Miéville (Perdido Street Station, The Scar e Iron Council).

Se a magia é suficiente confiável e de difusão eficiente, a tecnologia mais "mundana" que conhecemos, se existe, é, como você escreveu, algo mais com valor de excentricidade. Afinal, se o conhecimento científico está atrelado à magia, será ela a base de tecnologias.

Embora não-D&D, essa abordagem me parece mais abrangente e verossímil. O paradigma do D&D é, entre outras coisas, criacionista (afinal, sempre os deuses criam tudo que é coisa), o que me deixa sempre com uma pulga atrás da orelha.

Douglas Santana disse...

De fato considerar as implicações de uma extrapolação do uso da magia depende totalmente da visão da mesma.

De qualquer maneira, mesmo considerando a magia engessada de DnD, eu acho q o resultado seria MUITO diferente de tecnologia para nós.

Ex: ao invés de algo como a internet haveria muito mais a facilidade no teleporte. Mas daí supormos quais os efeitos de magia de animação de cadáveres, ou conjuração de servos extra-planares... pfff, o efeito é grande demais para termos noção dos impactos e ramificações.

Interessante o post!