segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Pensando o cyberpunk a partir de sua música

A parte de toda a reflexão que o gênero cyberpunk pode suscitar, podemos escolher outros olhares para pensá-lo. Ao invés de questionar se esse conjunto simbólico já nasceu datado e anacrônico ou se ainda é um por vir, podemos pensá-lo conceitualmente a partir da música. Dessa forma, deixamo de lado os cabelos esverdeados e os plugs a flor da pele para tentar engatinhar dentro do impacto que uma cultura hipertecnológica pode ter numa sociedade.

O cyberpunk é o mundo das sobreposições e fusões. A realidade digital entranhada na "real" de forma que os limites ficam difusos. Limites? Homem e máquina se entrelaçam e não é mais possível determinar onde começa um e termina outro. Realidades se sobrepõe indefinidamente e um indivíduo nada mais é do que o ponto de toque entre diversos planos onde o real se dá.

Uma pessoa anda na rua vestida como um punk dos anos 80 e seu avatar online imita a Marlene Dietrich com bigodes de Groucho Marx. Um executivo russo usa um terno de Kevlar (para evitar atentados) e a noite faz performances como Drag Queen com músicas da Cher em noites revival dos anos 70 em algum inferninho do bairro chinês. Nada em cyberpunk é simples ou linear, é referência dentro de referência dentro de referência. Tudo é um remix, as músicas são corte e colagem de outras músicas ad nauseam de forma que só os ouvidos mais atentos conseguem reconhecer a música dentro da música dentro da música. As pessoas têm poder de interagir com a obra musical, recortar, colar, mudar o pitch, acelar, colocar o próprio vocal ou sintetizar vozes famosas com programas de computador. Não existe mais barreira entre quem faz e quem consome música. Os ídolos ainda existem, mas quem disse que eles são ídolos por conta de suas canções?

Dizer que música cyberpunk é o Ministry (uma excelente banda, aliás) é muito pouco. Ministry é uma banda com som de cowboy homocore industrial, tem seu lugar no tempo e no espaço. Um cenário cyberpunk resgata o Ministry, mixa ele com uma orquestra dos anos 40, coloca samplers de maracas e joga a música na rua. Tudo está ali para ser consumido e regurgitado e consumido novamente. Devido ao excesso e ao sucateamento da altíssima tecnologia, o cyberpunk leva o corte e colagem ao nível da histeria.

Música cyberpunk tem nome, sobrenome e mais alguns detalhes entre parênteses. É isso com mais isso e aquilo outro. Nada mais é puro, assim como todo mundo está contaminado pela economia, pelas drogas, pela rede e pela tecnologia. Música cyberpunk é caos travestido de harmonia e vice-versa. Tudo se dá em camadas, músicas dentro de músicas. Música cyberpunk pode até não ter nome e ser ouvida uma única vez numa rádio streaming ou estar a venda num camelô em coletânias distribuídas em quatro mídias diferentes.

Alguns exemplos reais do que considero música Cyberpunk. Podem ajudar a ilustrar jogos do gênero.

The Grey Album. O Rapper Danger Mouse canta sobre bases que mixam o White Album dos Beatles com o Black Album do Metallica do rapper Jay-Z (valeu, Rocha!).

Dan Deacon. Empilhamento de samplers, vocal distorcido, cara de Nerd e barulho.

The Remix War. Série de Álbuns que coloca duas bandas do selo Metropolis para remixar músicas uma das outras. Recomendo muito o Strike 2, onde Front Line Assembly remixa o Die Krupps e vice-versa. Tem passagens de "batidão" que parecem um baile funk no inferno.

Qualquer coisa desse selo Digital Hardcore Records vai passar essa idéia do mix/remix com atitude. Alec Empire, a mente inquieta por trás da DHR, gravava quase um álbum por show. Música descartável que foi parcialmente reunida em muitos EPs ideais para deixar rolando na vitrola durante um tiroteio tenso.

Da DHR todo mundo lembra do ultra hit dos anos 90: Atari Teenage Riot. Porém, gostaria de deixar a dica do Bomb 20. Som cáustico mixando samplers de trailers de filmes. Ouvir Bomb 20 é, além de pressão, um exercício da percepção das múltiplas camadas e referências que cada música contém. Procurem uma música chamada "You Kill Me First".

Quando o Atari Teenage Riot esteve no Brasil (não lembro quando, algo tipo 96/97) o Alec Empire me deu uma cópia da fita com o "estado atual da coisa toda", segundo ele mesmo. Nessa fita conheci o ec8or e o Patric C. que mais tarde lançaram álbuns bem nervosos.

Se na aventura você tiver algum grupo de riot grrrls amazonas ninjas cyberpunk (afinal tudo é misturado e nada é simples), dê uma olhada no Cobra Killer também. Esta era a reunião da vocalista do ec8or com a vocalista do álbum Shizuo Vs Shizor (que é um mega mix de eletronico, música indiana e raiva) para berrarem juntas.

Eu realmente não sei se alguém ainda joga algo cyberpunk, mas se jogar, trilha sonora é que não vai faltar agora.

4 comentários:

Rocha disse...

Excelente post Rômulo, me deu vontade de voltar ao cyberpunk. Se fosse começar hoje usaria de trilha alguma coisa de breakcore e raggacore, acho que é uma mistura que passa ao mesmo tempo a idéia de uma parada alienígena bizarra e de misturas inusitadas.

Só uma correção - o genial Grey Album do Danger Mouse é um mistura dos vocais o Black Album do rapper Jay-Z com o instrumental do White Album. Quem mistura Beatles e Metallica é o divertido Beatallica.

http://www.beatallica.com/

casadoslordes disse...

Eu não jogo mais, infelizmente, meu grupo agora esta´dividido entre o Mutantes e Malfeitores e o Reinos de Ferro, aí já viu.

Quando eu jogava, eu tirava minhas inspirações das músicas do Matanza. Sempre fiz isso e sempre saíram aventuras pesadas pra cacete...uheuhehueuhe

Antonio Sá Neto disse...

Gotcha!

Você foi pego pelo Meme: Aleatoriedades

Veja mais em: http://popdices.blogspot.com/2008/11/meme-aleatoriedades.html

Douglas Santana disse...

Olá Srs.

Meu primeiro post no blog, mas pode ter certeza que vou acompanhar daqui para a frente. Muito difícil achar na blogsfera algo com esse tipo de inteligencia picante, parabéns!

Quanto ao tópico: será que música cyber punk é obrigatoriamente explosiva e caótica? Quando narrei abusei de Teargas & Plateglass que é bem soturno e usa muitas colagens sonoras de discuros, relatos e afins.

Claro que não me esqueço do PUNK do cyberpunk, mas sempre que li vi também diversos momentos quase... contemplativos... em relação à cidade. Por isso da idéia de um som mais lento e introspectivo.

Anyway... todas as dicas estão sendo devidamente adiquiridas.