segunda-feira, 6 de julho de 2009

Um bom fim de semana para o RPG Brasileiro

Acho que já falei aqui que brinco com RPG há mais tempo do que consigo contar. Algo como uma quase maioridade (18 anos) deve ser. Nesse longo período de atenção, há muito não via um momento em que RPG ganhasse algum tipo de acontecimento positivo.

Há muitos anos, grandes editoras se interessaram pela idéia e experimentaram esse empreendimento. Havia um grande evento internacional e diversos eventos estaduais de bom tamanho. Havia mais de uma revista especializada e tantas outras, inclusive o próprio jornalão globônico, dedicavam algum espaço aos jogos de representação e interpretação. Tinha um Dungeons & Dragons bem carismático sorrindo em várias bancas de jornal.

O tempo passou, RPG se consolidou como uma cultura de nicho tão específica e estreita quanto plastimodelismo ou pintura em porcelana. Dinheiro circula, mas não o suficiente para merecer presença no rol da fama da indústria cultural. Quando nerd ainda não era moda, o jogador de RPG era um tipo de nerd dos nerds, ou ainda, um atestado da verdadeira nerditude. Hoje, que nerd é qualquer cara com grana para se entupir de gadgets e memorábilias, o RPG, que nunca teve muito o que ostentar, passa desapercebido.

O Nerd que a modernidade deseja é uma força de produção incansável, um "viciado em trabalho" que reverte rapidamente todos os seus ganhos em coisas que não precisa. Fruto de uma lógica de mercado que não consegue emplacar um filme sem que este seja baseado num quadrinho, desenho animado ou qualquer outra coisa que a cultura nerd tenha eleito para adoração. Inclusive outros filmes revisitados e continuados. Autofagia fílmica. Para que RPG chegue nesse neo-nerd vai ser necessário um filme de Forgotten Realms, ou um gadget estilo Kindle específico para livros de RPG, que vem com softwares de rolamento de dados, planejamento de campanha e afins. Enquanto isso não acontece, RPG curte sua vida morna de parceiro do Xadrez no coração dos jovens.

Para dar ainda mais ares de drama para a brincadeira, RPG ainda é associado a um punhado de crimes mal explicados, mal investigados e mal cobertos pela mídia tradicional com sua vontade latejante de criar um mundo ainda pior para vivermos. O que já era pequeno, perde um pedaço. Seja nas iniciativas que morrem na praia, seja nas pessoas que perdem acesso ao jogo, seja nos produtos que encarecem e perdem retorno por caírem no vigilantismo implacável da sociedade dos receios.

Fim de semana passado, uma dessas histórias se encerrou. Garotos que eram acusados de matar uma garota por conta do RPG foram absolvidos por falta de evidências. Os títulos da notícia na mídia tradicional continuam falando em crime do RPG apesar de tudo. Paciência. Estamos aí mandando brasa.

Falem o que for. Temam o que quiserem temer. Entre tanta coisa fora de compasso que vemos no dia-a-dia, acharem que eu gosto de uma coisa errada é o de menos. Para jogar uma pá de cal em qualquer esperança de minguar uma subcultura que mal se percebe, também neste último fim de semana, tivemos a primeira RPGCon.

Não vou explicar a RPGCon ou o contexto que alavancou sua criação. Aqui apenas atesto seu sucesso em todos os níveis. Daqui para frente, o cenário que se monta é bom. Tudo aponta para dois grandes eventos nacionais por ano, fora possíveis edições em outros estados. Pequenos encontros como o dia D e o dia internacional do D&D já começam a ganhar ares de tradição mesmo não evoluindo muito. Temos só uma revista de RPG no mercado, mas junto com ela temos um manancial de blogs produzindo conteúdo por todos os poros. As grandes editoras não se interessam mais por esse nicho, mas temos uma editora bem dimensionada para atender esse mercado e o "gigante ferido" que promete voltar com força total.

Falou-se inclusive que nunca se jogou tanto RPG nesse país. Confio nos números embora não os perceba. Para mim, a cereja do bolo seria um bum de produção independente de qualidade. Este não chegou ainda, mas estou na torcida. Na verdade, o que eu quero mesmo, é não precisar explicar ou justificar o RPG toda vez que comento que curto. Quero o mesmo tipo de aceitação indiferente que recebo quando digo que gosto de fantoches.

6 comentários:

philsouza disse...

Eu tenho uma ligeira impressão que assim como eu, você está enxergando mesmo que lá na frente, um futuro muito mais interessante para o RPG. Estamos fazendo barulho...

Cat777 disse...

Muito bem apontado, cara! jofo RPG tb "a mais tempo do que poderia contar," coisas de Balzac.
Bjks.

opiumseed disse...

Pois é, Phil. Eu não tenho mais aquela ilusão infantil de RPG ganhando os grandes salões e se tornando uma febre mundial. RPG está bem como subcultura, depende apenas das empresas e do público se assentarem como tal. Me parece que estamos a caminho desse amadurecimento sustentável com a presença de gente mais profissa no mercado, tanto da parte das editoras quanto da parte de quem produz eventos.

Vamos ser sempre pequenininhos e invisíveis, mas que sejamos, ao menos, arrumadinhos.

Lúcia disse...

Muito bom seu texto. Praticamente já é um jornalistaD xD

newtonrocha disse...

Ótimo texto! Concordo plenamente, quanto mais eventos, mais luta de chão, catando novos jogadores e apresentando o RPG para um público maior, teremos um futuro brilhante para o nosso hobby além de lutar contra o preconceito!

Parabéns pelo texto!

Andrey Ivankio disse...

Nem sei se você continua acompanhando esse seu texto ou não, mas adoraria ver uma continuação dele, ou sua visão agora 2015, depois de 6 anos, como seria seu texto "hoje".